Contato com a natureza: um hábito tão necessário que é quase prescrição médica

Transtorno de déficit de natureza. Já ouviu falar? Não se trata de uma doença ou de um diagnóstico médico. Mas, olha, poderia ser. Essa expressão (que vem do inglês nature deficit disorder) foi criada para mostrar como a falta de contato das pessoas e, principalmente, das crianças com a natureza é prejudicial para a saúde e afeta o desenvolvimento de muitas formas. Richard Louv, escritor e jornalista norte-americano, foi o inventor do termo. Louv é autor do livro Last Child in the Woods (A Última Criança na Natureza) e fundador da organização Children&Nature Network, que tem exatamente o objetivo de tornar mais próxima a relação entre as crianças, famílias, comunidades com o meio ambiente.

A origem desse transtorno está na forma como estamos passando a viver nos últimos anos: cada vez mais confinados, limitando nossas tarefas e interações a locais fechados – dentro de casa, do escritório, da sala de aula, da academia ou qualquer outro ambiente indoor – e sempre ligados a recursos que nos deixam cada vez mais reduzidos a esses mesmos lugares: computadores, televisão, videogames, acesso à internet e mídias eletrônicas. É claro que esses atrativos têm grades vantagens para a vida, para o trabalho e para o entretenimento. O poder de cada um é indiscutível, mas também são eles em parte os responsáveis por bloquear as experiências do público infantil. Longe de ambientes naturais, muitas delas não passam por descobertas e, assim, podem ter dificuldades para desenvolver uma série de habilidades e sensações.

Até mesmo quem se emprenha para ter uma vida mais conectada com a natureza encontra dificuldade para encontrá-la. A urbanização tem feito com que o acesso aos espaços naturais nem sempre seja fácil. São bairros cada vez mais preenchidos com tijolo, concreto e asfalto. Terra, grama e planta pouco se vê. Aí, quando você soma essa realidade ao receio de muitos pais com as brincadeiras ao ar livre por conta da falta de segurança, da criminalidade e de outros perigos, a situação se complica.

É fácil lembrar como o contato com natureza faz bem. Lembra da última vez que você deixou sua cidade e fez um passeio em um sítio ou então botou os pés na areia, de frente para o mar? Provavelmente, essa proximidade com a água, a terra, as plantas e muitos outros elementos que fazem parte desse universo verde te fizeram voltar para casa sentindo-se muito melhor, corporal e mentalmente. Natureza faz bem pra todo mundo. Mas não precisa ir longe de casa para receber esses benefícios “terapêuticos” naturais. Em menor escala, pequenos parques, bosques e praças conseguem proporcionar uma sensação de bem-estar. Às crianças, esses espaços podem ser campos férteis para brincar e aprender.

Nas escolas, a ideia é repensar tanto na estrutura quanto nas atividades. Estruturalmente, as escolas devem criar espaços para pequenas hortas e jardins (que não ocupam um território tão grande, não exigem grandes investimentos e funcionam com locais preciosos de educação ambiental) e, quando possível, áreas maiores, como pomares. Em relação às atividades, o cronograma escolar deve trazer ações que frequentemente tirem as crianças da frente da lousa ou do computador, como caminhadas e rodas de conversa em parques; observação do céu, das árvores e dos animais ou mesmo cuidados com a horta e o jardim, que acabamos de comentar acima. O cenário natural permite uma infinidade de possibilidades. Essa conexão deve ser constante e aplicada nos simples momentos do dia a dia.

E cabe responsabilidade para todo mundo. Autoridades podem passar a encarar a criação e conservação de áreas verdes urbanas como investimento estratégico em educação, saúde e qualidade de vida, além de buscar inserir em cada escola pelo menos um espaço verde. Unidades de ensino e educadores podem se empenhar para que a educação ambiental prática seja uma realidade. Já os pais devem incentivar e permitir que os filhos desfrutem de algumas horas de contato com a natureza toda semana – com cautela, mas sem medo de roupa suja ou de pequenos arranhões. Tudo isso faz parte do crescimento e do aprendizado.

 

Atividades em contato com a natureza: temos cinco sugestões para você

Independente de qual cidade você mora e de quanto tempo tenha disponível, essas dicas vão servir bem para colocar as crianças em contato com o meio ambiente.

1 – Desde cedo, mas muito cedo mesmo, as crianças já podem se familiarizar com a natureza. Até mesmo os bebês. Em um horário de pouco sol e temperatura mais amena, coloque o carrinho do bebê embaixo de uma árvore, em um local tranquilo, e sente-se ao lado. Logo, você vai notá-lo olhando e se distraindo com o balanço das folhas, as cores, o som do vento ou dos pássaros. Deixe ele sentir um pouquinho do sol também. Converse sempre com a criança, contando onde estão, o que tem ali, ressaltando as belezas desse pequeno espaço de natureza. A medida que o bebê crescer, deixe-o tocar na grama, nas folhas, na terra e nas pedras.

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2 – Crianças mais crescidas têm energia e curiosidade de sobra. Então, vamos aproveitar? Tire-as do quarto e vão juntos até uma praça ou um parque. Lá, deixe que corram, subam em árvores, brinquem com a água, escavem a terra, “investiguem” o local. Se estiverem em uma área maior, façam uma caminhada e deixe a criança liderar alguns trechos. Todas essas atividades fortalecem o sistema imunológico, aumentam a resistência do corpo, auxiliam na perda de peso e estimulam a independência. Se esse programa se tornar comum, sugira algumas brincadeiras e desafios rápidos para animar. Exemplo: procurar pedras (com formatos e cores diferentes) para fazer uma coleção ou descobrir que tipos de animais, pássaros e insetos vivem ali por perto. A única regra é tomar cuidado, jamais machucar animais ou danificar as plantas.


3 – Dentro de casa tem um jeito de explorar o mundo natural também. A melhor alternativa é montar uma horta caseira. Temperos e hortaliças podem ser plantados em vasos, jardineiras ou em materiais recicláveis, como garrafas, latas e caixas de leite ou de suco. As hortas urbanas são indicadas para quem mora em casa ou apartamento sem quintal, jardim ou outras faixas de terra. Ao mantê-las, as famílias podem plantar e colher os próprios alimentos, consumi-los mais frescos e livres de agrotóxicos, além de usar os restos como adubo, que volta para a própria horta. É fundamental deixar os cuidados com as plantas sob responsabilidade das crianças e mostrar que a hortinha precisa de cuidados diários. Deixe que elas mexam na terra, plantem sementes e mudas, reguem e colham, sempre com a sua supervisão.0004_post_informativo_ie_setembro_03
4 – Chuva, frio, vento… nada disso é obstáculo. Os dias de sol são ótimos para diversas atividades, mas comece a mostrar que, independe do clima, a natureza tem sempre um lado bom e bonito. Observem a chuva cair, fale sobre a importância dela para as plantas e também do ciclo da água para o nosso mundo. Ensine a captar a água que cai do céu e demonstre como ela pode ser utilizada dentro de casa, em várias atividades domésticas. Mostre como o som da água pode acalmar. Quando for possível, caminhem debaixo da garoa fina. Encontrem, juntos, a beleza de cada estação do ano. Colocar a criança em contato com o mundo vai ajudá-la a desenvolver sensibilidade e sensações que a natureza sabe proporcionar como ninguém.

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5 – É fato: nem todo lugar, ainda que “natural”, é adequado para os pequenos. Infelizmente, algumas áreas verdes sofrem com acúmulo de lixo e outros tipos de poluição. Muitas vezes, viram pontos de criminalidade, além dos riscos nativos deste universo, como animais e insetos peçonhentos ou plantas que requerem cuidados. Mas nada substitui o poder e o bem-estar que vêm da natureza. Então, para não abrir mão dela, é fundamental analisar o local antes de qualquer atividade e estar atento à segurança. Lembre sempre as crianças dos cuidados necessários nesses locais, do respeito a cada elemento que faz parte do cenário natural e também dos cuidados com a higiene – lavar as mãos após a brincadeira, por exemplo. Quando não for possível estar em um espaço ambiental, a alternativa é incentivar as crianças a observar: o céu, as estrelas, as árvores, os animais, os rios por onde passarem. Essa observação do mundo ajuda a apurar os sentidos e, em algum momento, podem servir de inspiração para diversas atividades e tarefas, seja na escola, seja na vida.
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